quarta-feira, 30 de abril de 2014

Escultora brasileira eterniza mais um vínculo entre São João Paulo II e o Brasil A artista plástica Mirtis Moraes fala do que a motivou a esculpir "O Papa do Amor"

Aleteia

O carisma de João Paulo II, que impressionava católicos e não católicos, não era fruto apenas da sua figura espiritual, mas também das suas facetas mais surpreendentemente humanas. Uma delas é bastante peculiar para o "currículo" de um papa: o jovem Karol Wojtyla era umartista.

E foi a sua sensibilidade para as artes o que atraiu a atenção da artistaplástica brasileira Mirtis Moraes, uma escultora apaixonada pela mensagem de liberdade transmitida pelos movimentos da dança. Entre as suas esculturas, aliás, os passos arrebatadores de bailarinas e bailarinos ocupam um lugar de destaque. "Esculpir o movimento humano me fascina", diz ela. "É como esculpir um absurdo, uma contradição: a dinâmica em forma estática; a impressão do movimento vivo através da matéria inerte, imóvel; um instante fugaz eternizado no tempo de uma contemplação".

A arte sacra também é central na obra da escultora, que é mãe de quatro filhos envolvidos com a arte e a cultura. É a sua maneira de lidar comoutro paradoxo: o invisível tornado visível, o inalcançável tornado atingível. Com argila, bronze e alumínio, ela deu forma a peças poéticas e cheias de significado cristão, como o "Sudário Vivo", o "Lenço da Verônica", "A Mão do Sagrado Coração" e "Nossa Senhora da Paz".

Mirtis também quis eternizar a face de um São João Paulo II já idoso, mas sempre sereno, a quem ela chama de "Papa do Amor". Na semana em que o papa polonês foi elevado aos altares, Aleteia conversou com Mirtis sobre o que a motivou a esculpir essa obra:

Por que João Paulo II?

A ideia veio de um convite da diretora da peça "Enlace - A Loja do Ourives", escrita pelo jovem Karol Wojtyla, que foi encenada em São Paulo recentemente. Eu fiquei encantada com o convite! Já tinha conhecido o papa pessoalmente numa audiência em Roma, mas não tinha pensado em esculpi-lo. João Paulo II é um ser humano que conseguiu passar para o mundo inteiro um testemunho de amor, especialmente pela juventude e pela família. Ele foi um líder forte, que quis transformar o coração das pessoas. Isso é entusiasmante, merece reconhecimento e apoio. E eu já conhecia um pouco da história dele como jovem ator, escritor, esportista, enfim, como artista, como pessoa. Isso me fascinou mais ainda, porque cria uma identificação maior, uma comunhão de corações apaixonados pelas artes humanas.

Qual é o aspecto de João Paulo II que você procurou esculpir?

O amor. Ele se doava para que a mensagem de amor de Jesus fosse mais conhecida pela humanidade toda, não só pelos católicos. E, como Jesus é o Amor, eu sempre enxerguei o Cristo crucificado, que fazia parte do báculo do papa, como uma imagem do Amor. E resolvi retratar esse báculo em forma de coração, um coração que é o próprio Cristo. O nome da obra é justamente esse: "O Papa do Amor".

Qual é o material e a técnica que você usou?

Modelei em argila e fiz um molde com cinco cópias, que é uma quantidade que, na escultura, consideramos como peça única. Ela foi fundida em bronze, com pátina marrom.

A sua obra é católica?

Eu sou católica, mas tento fazer uma arte aberta ao diálogo humano. Não faço apenas arte sacra. Gosto muito de representar o movimento humano, em particular o das bailarinas. Amo a dança! Nas obras de temática sacra, eu tento refletir o vínculo entre o celeste e o terreno. Eu gostaria que a minha arte falasse à pessoa terrena, às pessoas reais, ao coração de um judeu, de um evangélico, de um espírita, de um católico, de um ateu. Não escondo a minha fé, mas acho que ela não pode nos fechar num círculo determinado. Acredito que todos nós podemos apreciar os símbolos que propõem uma elevação da alma ao celestial, independentemente da crença de cada um. Eu gostaria de propor uma reflexão que fosse além das divisões. Aliás, como João Paulo II também queria!