quinta-feira, 3 de abril de 2014

Medo de 'prestar contas'


Esta semana, em visita aos enfermos ouvi essa expressão: “Não tenho medo de morrer, mas de prestar contas”. Já ouvi e muitas vezes, e de vários modos, a expressão: “Tenho medo da morte”; mas pela primeira vez ouvi dizer: “Tenho medo de prestar contas”. Essa será a porta de passagem pela qual todos nós seremos convidados a entrar. Entrar pela porta estreita e diante do Pai Deus, ver e julgar em segundos, como se fosse um filme, toda a minha existência terrena, e no final ouvir das duas uma palavra: “vinde, bendito” ou “ide, maldito”.

O Julgamento, sem dúvida, será de um Pai que não quer a condenação e sim a salvação de todos; porém não deixa de ser um julgamento.

"Todas as nossas práticas religiosas, se não levarem para um amor maior entre nós, não servem para nada. Pelo contrário. Serão motivos do fogo eterno".

O Senhor não vai julgar pelas vezes que participamos da missa ou do culto; pelas vezes que pegamos a Bíblia para meditar ou preparar a pregação aos fiéis; pelas vezes que dobramos os joelhos para rezar no templo ou no quarto. O Senhor não quer saber se fizemos peregrinação para a Terra Santa, pelos santuários. Nunca vai perguntar sobre nossos ritos e rituais, nossas fórmulas de louvores. Não seremos sabatinados sobre as contas bancárias e muito menos sobre os bens materiais. O julgamento será sobre uma única pergunta: Tudo o que fizemos e possuímos serviu para amar a Deus sobre tudo e o próximo como a nós mesmos?

Todas as nossas práticas religiosas, se não levarem para um amor maior entre nós, não servem para nada. Pelo contrário. Serão motivos do fogo eterno.

O amor verdadeiro se revela na prática da regra de ouro: “fazer aos outros o que gostaria que fizesse a nós.”

Portanto, o único critério a nos julgar será a nossa capacidade de atender às necessidades básicas dos mais necessitados.

“Estive com fome me destes de comer, estive com sede me destes de beber, estava nu e me vestistes, estava doente e preso viestes me visitar”. Porque todo o bem ou o mal feito ao próximo, é ao Senhor que fazemos, e ficará para a recompensa na eternidade, ou para a condenação eterna.

Não precisamos ter medo da morte. Por isso ainda é tempo de fazer deste tempo um recomeço. No tempo presente esta a oportunidade de refazer nossas escolhas e ser coerentes nas suas consequências.

O mundo precisa de cristãos autênticos, coerentes com o que professa com a boca, crê com o coração e efetiva nas ações.

De palavras e palavras, promessas e promessas o inferno já esta cheio. A tristeza de Deus está no coração humano petrificado pela prática hipócrita, onde as aparências são mais importantes.

Estamos assustados pela epidemia de “dengue”, e com razão precisamos criar juízo sobre essa urgência, mas a pior epidemia, que está matando multidões é a falta de amor autêntico e verdadeiro.

O coração ganancioso e prepotente, nunca será capaz de ver o outro como alguém a ser amado. Não precisa ter medo da morte; comece a preocupar-se com a prestação de contas no encontro com Aquele que te criou por amor e para amar.
Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá (PR)
CNBB